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DESAFIO DE TORNAR UM TEMA ADULTO EM APRENDIZADO INFANTIL

Refletindo sobre a orientação que ofereço nos encontros, visitas às unidades da Cruzada do Menor, bem como em conversas informais com as coordenadoras e assistentes dos programas que gerencio, me vi intrigada com a minha proposta da pedagogia de projetos fincada na arte.
Sei que partiu do meu gosto pessoal pela arte, a idéia dos projetos pedagógicos. O quanto poderia ser mágico o conhecer, o descobrir, e pensei na criança que fui meio século atrás.
Filha de pais semi-analfabetos, moradora em uma favela da Zona Sul, muito doente por conta das precariedades da vida, as instalações sanitárias e as constantes chuvas que invadiam nosso barraco e levavam tudo, mas dando-nos a possibilidade de aprender com a mesma chuva, desenvolver a partilha, e viver no coletivo dos abrigos. Foi lá que aprendi a ser comunitária.
Foi na favela que a garota encontrou a vida, claro que foi lá! Foi no beco da amizade, foi embaixo das barracas na feira de quarta-feira no Leblon, juntando as xepas com carinho para a comidinha no latão, foi lá que aprendi o que sei de mais valor: a troca, a importância dessas palavras: parceria, comunicação, flexibilidade, e ter estômago para aturar as vicissitudes do percurso na terra.
Lembro que não gostava nem um pouco de apanhar, mas apanhava muito; lembro que não gostava de ver as “caquinhas” boiarem, não gostava de ouvir as brigas da vizinha com o marido, nem de saber que alguém estava com fome, não gostava de não saber ler, era o incômodo me servindo de estímulo para tentar mudar a minha situação social. Mas gostava dos vizinhos, da escola, da minha família, da minha casa e aí aprendi a mágica, que me levaria daquele lugar que eu tanto amava e ao mesmo tempo odiava: os versos, a prosa, o juntar letras e construir histórias. Claro que havia muita dificuldade quanto ao vocabulário, pois com o estímulo que eu recebia desenvolvia outras questões, como gerenciar uma casa com três irmãos menores, panelas, água para apanhar, tão longe quanto o sonho, roupa para lavar, fezes para despachar, aprendi a cuidar. Também foi lá, foi na minha meninice.
No meu mundo tão pequeno, pobre decerto, conheci, através de um santo tio, o meu grande companheiro Monteiro Lobato, e me transformei na própria Narizinho para voar na miséria e torná-la ouro em pó. Não havia palmatória que me fizesse chorar, não havia dor no estômago que me tirasse o desejo de fechar os olhos e ir para o Sítio, afinal ele era muito mais perto do que onde eu tinha que pegar água para as tarefas. O caminho para chegar ao Sítio era a mão, os olhos, e o transporte era o meu coração.
Na minha favela que hoje teimam em chamar de “comunidade popular”, que também o é, eu escutava o louvor dos irmãos evangélicos e amava; via a procissão dos católicos, e a seguia com fé; escutava o som do tambor e desejava tirar as sandálias, e descalça deixar aquele som tomar conta de todo o meu ser, pois ele já era meu, ecoava dentro do meu peito e utilizava o mesmo transporte que eu utilizava para ir ao Sítio, o meu coração.
Os barracos eram colados um ao lado do outro, daí escutar a conversa fiada e afiada do vizinho. Era a partilha diária da comunicação, e a criança percebia, ria, chorava de medo, brigava, rebelava-se e obrigatoriamente cresceu antes da data estipulada pela vida.
A criança que era vivia a realidade do mundo adulto. A casa é, para o adulto, os móveis, os assuntos, as tarefas; e a criança é o espectador de plantão em um plano de visão prejudicado pela sua estatura. E para mim foi esta diferença entre o ser e o espaço, os obstáculos que ela presencia da coxia que me deixou mais curiosa e esticada para as descobertas.
Hoje, peço que as educadoras ensinem para as crianças, idosos e famílias. Que procurem ler, ouvir e apreciar Noel Rosa, Cartola, Zeca Pagodinho, Tarsila do Amaral, Cândido Portinari, Vinícius de Moraes, Monteiro Lobato, por conta da sede da minha alma, por conta do copo de água da cultura que deixam de oferecer as nossas crianças em suas casas, talvez imposto pela distância da nascente da informação ou pela demanda de sobrevivência das famílias. "A oportunidade de ouvir, ler e apreciar a arte é uma das formas de se enfrentar a luta pela sobrevivência".
O rio que corre é maná para os olhos que podem avistar, para os lábios que na sede umedece, para as mãos que em conchas o recebe, porém se o rio não corre diante do olhar ou se não se referenda a água potável a este rio, como diferenciar um esgoto de um rio?
Na vivência pedagógica da Cruzada do Menor, procuramos mostrar para crianças, jovens, idosos e famílias, que o nosso rio, do qual temos sede de beber, é a tecnologia que buscamos nos instrumentar com CDs, internet, TV, jornais, pesquisas. É a cachoeira das músicas que nos encanta, são as imagens que surgem através da descoberta diária. É nossa sede de saber e estar fazendo parte da vida que dá a tonalidade certa e a nossa posição no quadro pintado pela grande artista, a Pedagogia.
Sei que tornar um tema adulto em uma linguagem infantil é um desafio para os profissionais, pois necessitam pesquisar, analisar. Infantilizar este tema adulto é desenvolver talentos, é reaproveitar a história de vida para trazer à tona assuntos pertinentes aos conteúdos trabalhados, como o perigo do fumo para a saúde, entre outros. Sei também que trazer o adulto para o mundo das crianças é trazer alegria e oportunidade de brincar um pouco, nesta vida tão dura...
O compromisso é este, quanto maior for a nossa curiosidade, a nossa sede de saber, quanto mais a gente cantar, pintar, dançar, falar, abraçar, escutar, mais a gente se aproximará de uma criança. O que ela necessita e mais precisa é descobrir que não há miséria maior do que o passar na vida sem perceber que a nossa casa é o melhor lugar do mundo, pois ela é o mundo, com todas as suas janelas e portas para os caminhos do estímulo, do novo, do velho, da nossa história na terra.
Qual é mesmo o nosso compromisso? “Viver e não ter a vergonha de ser feliz” (Gonzaguinha).
Aproximando-as da arte, mostrando o lado bonito, reflexivo, melódico, poético, inspirador da vida, a criança e sua família serão capazes de desenvolver o sonho e empreender em seu destino, estratégia para suportar as pedras colocadas pela sua condição social. Eu ganho mais segundos a cada suspiro contabilizado, mas Monteiro Lobato continua menino a enfeitar a cabeleira de nossas meninas e o Saci a correr e fazer bagunças, a Tia Anastácia é a nossa avó eterna que está guardada dentro do quadro pintado pela saudade. Pintamos a tela de esperança e fazemos a exposição dos sonhos no transporte do coração das famílias, elas estão lá nas pesquisas, nas culminâncias, na ânsia de se ver e ver o seu filho crescer feliz.
Refleti também sobre o meu carinho pela palavra, porque gosto tanto de escrever e daí pensei no desprezo à favela. Medo do quê? Pra mim, fá é uma nota musical cantada até pelos pássaros, e vela é a luz da fé. Daí nascer em uma favela é ter a música, a arte com luz e, principalmente, acreditar que o candeeiro do amor não pode ser apagado, pois a educação precisa do refrão da continuação, as cores da liberdade e a apalavração dos nossos indicadores. Temos o compromisso intergeracional latejando dentro da nossa prática diária e nele o nosso passado cultural encontra o eco no presente da troca.
Melhoramos, desenvolvemos, mas não deixamos de ser registro de nossa própria história.
O desafio maior é com as nossas limitações em educação. O saber não tem fronteiras e não ocupa lugar, ele está por todos os lados estimulando todos os nossos sentidos e nos fazendo fortes diante das nossas próprias aspirações e viagens.
Vocês, educadoras, monitoras, funcionários da Cruzada do Menor estão fazendo a diferença, pois, em pesquisas históricas, conseguem ir para o ano de 1933, 1928 e assim vai. Levam no barco encantado um bocado de poesia, alegria e deixam fincada na pedagogia comunitária o valor da memória dos nossos grandes mestres e companheiros da arte.
A minha maior felicidade é, ao passar pelos programas, ler nas entrelinhas dos murais das creches, dos vocais, das pinturas, que estamos no caminho certo. Quando o processo é prazeroso, o estimulo é contínuo e cada vez poderá se aprender mais. Daqui a cinqüenta anos “quando eu me chamar saudade” (Nelson Cavaquinho), adultos que conheceram a arte através dos nossos programas, lembrarão, como eu lembrei, a menina que fui, e com certeza terão utilizado o passaporte do aprender para desenvolver suas vidas.

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